
No portão fechado
Lembro-me vagamente daquela época da minha tristeza. Lembro-me que eu chorava. Havia lágrimas de ressentimento. Não havia chances para eu poder escapar daquela situação, pois o meu próprio sangue me condenava a perpétua solidão.
Eu estava só. Às vezes o perfume do jardim, me trazia uma doce lembrança de quando havia bailes, e as cores das flores refletiam meu rosto pintado como a primavera. Mas depois veio o inverno e congelou o vento que soprava da minha juventude.
Eu tinha 23 anos. Eu realmente naveguei por oceanos, e vi gaivotas pousando nos faróis dos mais belos litorais. Na minha mente. Eu realmente dancei no salão em plena triunfal orquestra alegre, eu rodava meu vestido com cores alegres enquanto meus cabelos vibravam os cachos naturais. Tudo isso na minha mente, enquanto eu estava no portão fechado.
Depois eu vi que meu vestido era fosco e escuro. E tive que esconder meus cachos com um véu, para demonstrar minha eterna condição, ou para atormentar ainda mais o meu suplício.
Ah! Minhas preces rogavam outros horizontes. E não esse mundo fechado e silencioso. E não esse mundo com cantos sacros e torturantes, porque nesse ápice do meu rancor, já não faço preces de salvação, mas sim de libertação.
O que me entristece é que eu não pude ter o livre arbítrio que Deus havia me deixado. Ele se perdeu. O que me mata lentamente é poder não ser a jovem que sonha com a vida de braços abertos para o belo. Já não vejo mais beleza. Já estou cansada das noites de repetições. É sempre a mesma oração. E o Deus ainda me algema. Nesse momento tenho essa sensação, mesmo estando sujeita por pecar duas vezes. Uma por negar as leis verdadeiras de cristo, e a outra por negar minha terrível condição, que tanto e ignorante, embeleza os que estão sentados nos bancos enfileirados. E eu só posso ver os quadrados ornamentais. Os rostos não são como o meu, mas todos querem no final tocar em minhas mãos.
Quando provo do divino alimento, eu fecho os olhos como se fosse mel a derreter sobre meus lábios. E o simbólico sangue, para mim é tão real, como se fosse o meu próprio, por assassinato. A única diferença é que ele nunca será tão santo. Não tenho sorrisos hoje. Minha cama é estreita e apertada, Mas na minha realidade, quando o sol aponta por detrás daquele vitral antigo, ele avisa que é a hora de rezar. Sempre a mesma coisa. E a humanidade está cada vez longe... E eu vou perdendo cada vez os perfumes das flores do jardim que um dia encontrei florido. E minha vida continua como a de muitas aqui. Mas eu estou nesse momento, no portão fechado fortemente. Assim seja. Assim estou.
Quem sabe você saberá quem sou, diante do altar iluminado pela fé de alguém.